Se você está precisando de uma ajudinha com Ditadura MIlitar, preparamos um resuminho bem explicado, com exemplos de interpretações de trechos musicais bem importantes. No final, temos uma surpresa pra você ;)
A Ditadura Militar aconteceu em um período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época foi de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar.
A ditadura militar tentou vetar, ou dificultar, a livre circulação de ideias no Brasil e a censura foi imposta a qualquer manifestação cultural ou científica. Nada escapava a fúria dos encarregados, pela ditadura, de impedir o debate no país e a música foi uma das suas vítimas mais notórias, mas isso não foi suficiente para calar a voz dos artistas.
Algumas tiveram maior repercussão durante esta época de extrema censura e fazem sucesso até os dias de hoje. A lista a seguir fala um pouco sobre essas obras e seus autores.
1) Cálice - Chico Buarque e Gilberto Gil
A música “Cálice”, lançada por Chico Buarque em 1973, faz alusão a oração de Jesus Cristo dirigida a Deus no Jardim do Getsêmane: “Pai, afasta de mim este cálice”. Para quem lutava pela democracia, o silêncio também era uma forma de morte. Para os ditadores, a morte era uma forma de silêncio. Daí nasceu a ideia de Chico Buarque: explorar a sonoridade e o duplo sentido das palavras “cálice” e “cale-se” para criticar o regime instaurado.
Pai, afasta de mim esse cálice
Analogia entre a Paixão de Cristo e a vida da população que encarava a ditadura. A palavra “cálice” relaciona-se com o verbo “cale-se”, representa a censura.
De vinho tinto de sangue
Na Bíblia, conta-se que dentro do cálice há o sangue de Cristo, na música é o sangue do povo.
Como beber dessa bebida amarga
Uma metáfora referente a recusa do estado que a eram tratados.
Tragar a dor, engolir a labuta
Expressões que significam o convívio com a dor e trabalho.
Mesmo calada a boca, resta o peito
Refere-se ao sentimento de liberdade escondido embaixo da censura.
Silêncio na cidade não se escuta
O silêncio está metaforicamente relacionado à censura, na medida em que o silêncio não se escuta, o silêncio não existe.
De que me vale ser filho da santa / Melhor seria ser filho da outra
Metaforicamente, inferiorizam a “pátria mãe”, Brasil, diante de uma prostituta, com o uso de “da outra”.
Outra realidade menos morta
Alusão a pedir por uma sociedade que funcione justamente.
Tanta mentira, tanta força bruta
O regime militar propagandeava que o país vivia um “milagre econômico”, o que era uma mentira porque estava às custas de um trabalho desumano.
Como é difícil acordar calado / se na calada da noite eu me dano
Refere- se a dificuldade de aceitar passivamente as imposições do regime, principalmente diante das torturas e crimes que eram realizadas à noite.
Quero lançar um grito desumano / que é uma maneira de ser escutado
Protestos pacíficos não eram escutados, logo queria partir para um conflito.
Esse silêncio todo me atordoa
Algumas torturas envolviam perder os sentidos, para aqueles que se recusassem a ficar quietos.
Atordoado, eu permaneço atento
O artista diz que, mesmo nesse estado, espera por algo que sabe que vai acontecer.
Na arquibancada, pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa
O acontecimento, porém, pode ser apenas um artifício do governo, o “monstro”.
De muito gorda a porca já não anda
O porco é um símbolo da gula, um dos sete pecados capitais, retomando os elementos católicos.
De muito usada a faca já não corta
Expressão que demonstra a exaustão do povo diante da situação.
Como é difícil, pai, abrir a porta
A porta representa a saída de um contexto violento. Biblicamente, sinaliza um novo tempo.
Essa palavra presa na garganta
A “palavra”, usada metaforicamente, significa o protesto.
Esse pileque homérico no mundo
Refere-se a outros regimes ditatoriais pelo mundo.
De que adianta ter boa vontade
Frase bíblica: “paz na terra aos homens de boa vontade”.
Mesmo calado o peito resta a cuca dos bêbados do centro da cidade
Mesmo sem liberdade o homem não perde a mente e pode continuar pensando.
Talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado
Fala-se da esperança de uma nova realidade.
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça / minha cabeça perder teu juízo
Tem o significado de estar fora da lei e ter suas próprias regras, comandar sua vida e seus desejos.
Quero cheirar fumaça de óleo diesel / me embriagar até que alguém me esqueça
Para fazer com que os subjugados perdessem a noção da realidade, dentro da sala queimava-se óleo diesel, deixando-os embriagados. Já as vítimas, podiam fingir-se desmaiadas, para não serem torturadas.
2)O Bêbado e A Equilibrista-Eldir Blanc e João Bosco
“O Bêbado e a Equilibrista”, foi composta por Aldir Blanc e João Bosco e gravado por Elis Regina, em 1979. Representava o pedido da população pela anistia ampla, geral e irrestrita, um movimento consolidado no final da década de 70. A letra fala sobre o choro de Marias e Clarisses, em alusão às esposas do operário Manuel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, assassinados sob tortura pelo exército.
Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbeado trajando luto / me lembrou Carlitos
Na primeira estofe da música, tem referências ao otimismo que o Brasil vivia até a primeira metade da década de 1960. Aldir Blanc pode ter recorrido a uma figura poética baseada em velhos temas, como o filme Luzes da Ribalta com Carlitos, uma das personagens mais conhecidas de Charlie Chaplin. Um homem de chapéu-coco, bigode e um paletó muito apertado que, apesar de pobre, agia como um cavalheiro. Fica clara a contradição entre “bêbado” e “luto”: a alegria do vagabundo que tenta driblar a situação e o estado melancólico da sociedade brasileira.
No entanto, a luz do progresso chega ao fim, pois “caía a tarde feito viaduto”. Essa passagem lembra duas tragédias semelhantes: o Viaduto Paulo Frontin, no Rio de Janeiro, que desabou durante sua construção, em janeiro de 1971. A outra aconteceu em Belo Horizonte, em fevereiro de 1971. Foi um pavilhão que, projetado por Oscar Niemaier sob a ordem do governador de Minas Gerais, Israel Pinheiro, também desabou sobre os operários, durante a hora de folga, no meio-dia.
Esse conjunto de construções correspondia ao “milagre econômico” que a ditadura tentava apresentar à população brasileira, para recuperar as antigas euforias dos períodos populistas. Porém, seus acidentes, como estes dois denunciados metaforicamente na música não eram divulgados pela mídia da época e as vítimas dificilmente eram indenizadas pelo governo responsável. Além disso, “caía a tarde” nos remete ao horário do dia quando as sessões de tortura do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) começavam.
A lua / tal qual a dona do bordel / pedia a cada estrela fria / um brilho de aluguel
A lua apenas reflete a luso do sol. Esse é o tema da segunda estrofe, que faz menção aos reflexos do passado. Assim, segue a noite, referida na terceira, quarta e quinta estrofe, denunciando em linguagem figurada as consequências da ditaduras: torturas, exílios, desaparecimentos e famílias dilaceradas. Além disso, a Lua não tem brilho próprio, mas como proprietária do prostíbulo, rouba-o das suas empregadas; um brilho falso, que pode representar os políticos que se “venderam” ao regime militar, em troca de benefícios pessoais, com os recursos “roubados” do país.
E nuvens! / lá no mata-borrão do céu / chupavam manchas torturadas / que sufoco! / louco!
Antes da caneta esferográfica, mata-borrão era um papel que absorvia a tinta em excesso das canetas-tinteiro para evitar erros. Saber disso permite entender que existiam determinados controles e atitudes punitivas para aqueles que “manchassem” a ordem presente na ditadura. O ditador pode ser ironizado como o “louco” apontado nesta estrofe da música.
Meu Brasil / que sonha com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu num rabo de foguete / chora a nossa pátria mãe gentil, / choram Marias e Clarisses no solo do Brasil
Henfil, que rima com Brasil, é um apelido ou pseudônimo do cartunista e jornalista Henrique Filho que, exilado, era irmão de Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo e ativista de direitos humanos, também perseguido e exilado, como tantos outros brasileiros
Chora!A nossa Pátria / mãe gentil / choram Marias / e Clarisses / no solo do Brasil...
Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, que fazia parte do movimento de resistência contra o regime e teve um suicídio por enforcamento muito mal forjado em uma cela do DOI-CODI. Maria, por sua vez, era esposa do metalúrgico Manuel Fiel Filho, torturado até a morte sob a acusação de fazer parte do Partido Comunista Brasileiro, embora seu real crime tenha sido ler o jornal A Voz Operária. No plural, “Marias e Clarisses” são todas as mulheres, sejam mães, filhas ou esposas, que sofreram por alguém que foi torturado ou exilado. Além disso, destaca-se o tom de ironia ao rimar um refrão do Hino Nacional com Brasil, neste refrão, onde apresenta justamente um Estado que deveria nos proteger, mas que nos tortura.
Mas sei, que uma dor / assim pungente / não há de ser inutilmente / a esperança…
Dança na corda bamba / de sombrinha / e em cada passo / dessa linha / pode se machucar…
Há uma história brasileira do início do século XX, baseada na vida de Zequinha de Abreu, compositor de Tico-Tico no Fubá, um músico que se apaixona pela trapezista de um circo e compõe uma valsa homônima à moça chamada Branca. Assim, ele rompe seu noivado para seguir a caravana do circo, mas se decepciona e volta à terra natal, onde vive seu casamento deprimido e começa a tocar em bailes de carnaval seu grande sucesso (Tico-tico no Fubá). Eis que um dia a vê entrando no salão com o marido e interrompe o chorinho que dá nome ao filme e começa a tocar Branca. Tocada pela emoção de ouvir sua música ela vai a seu encontro, mas Zequinha abandona o piano e sai desesperado pelos fundos do clube e acaba morrendo em seus braços num ataque cardíaco fulminante.
Azar! / a esperança equilibrista / sabe que o show / de todo artista / tem que continuar…
Os artistas, não conformados com a opressão, usariam assim a expressão artística, como uma arma disponível para defender a democratização, em meio ao comportamento da sociedade, que vivia na corda bamba, sempre por um triz a ser pega fora da linha estipulada pelos militares. Mas em meio a essa corda bamba de incertezas, todos prosseguem com sua vida cotidiana. E a esperança é o que faz eles prosseguirem com a luta para seguir adiante; afinal, “… o show tem que continuar…”
3)Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores-Geraldo Vandré
A música foi lançada pro Geraldo Vandré em 1968, fez com que os militares censuram a canção por fazer clara referência contrária ao governo ditatorial. O sucesso da canção é atribuído aos mais diversos fatores: a rima de fácil assimilação e que “gruda”; a melodia em forma de hino, o que acaba por se tornar mais uma provocação ao regime; além de retratar os desejos e anseios da geração da época.
Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não
Representa os protestos, preenchidos em sua maioria, por jovens. Mostra que independente de crenças e idéias, as pessoas são iguais, estando elas do mesmo lado ou não.
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Agricultores, operários, camponeses, mulheres, jovens, professores, jornalistas, intelectuais, padres e bispos, todo tipo de pessoa sofria com a ditadura.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Critica aqueles que, mesmo nao aprovando o regime, não faziam nada para mudar o país.
Pelos campos há fome em grandes plantações
Os poucos que possuíam um pedaço de terra, a mesma lhe era tomada, os camponeses muitas vezes eram despejados e acabavam por passar fome.
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Cordao é o grupo de foliões do carnaval. Assim eram divididas algumas das manifestações, em blocos: artistas, mães, padres, intelectuais e entre outros, que em muitos casos, caminhavam indecisos ou com medo dos militares.
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão
Enquanto os militares reprimiam os protestantes com canhões, bombas de gás, e armas, a população saia nas ruas com cartazes e com a força de suas vozes, muitos atirando pedras e tudo o que estivesse ao alcance dos mesmos, mas nada parecia ser tão forte e provocante quanto os gritos, as palavras de ordem dos movimentos estudantis, frases e músicas daquele ano, essas sim eram suas verdadeiras flores. Mas começaram a surgir grupos que não acreditavam mais em democracia sem a violência, alguns grupos de radicais se formavam e gritavam em coro: “Só o povo armado derruba a ditadura”, enquanto do outro lado um grupo militante gritava: “Só o povo organizado conquista o poder”.
Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão
Os soldados estavam sempre armados e dispostos a prender os manifestantes e levá-los para as salas do DOPS, porém, muitos pareciam alienados, não sabiam direito o que acontecia ou fingiam não saber, para quem sabe assim se redimir da culpa de tantas mortes e “desaparecimentos” da época. Mas tinham famílias, namoradas, mãe, irmãos podiam sim ser amados por alguém ou então odiados por todos. Muitas manifestações foram, sobretudo contra a violência dos policiais.
Nos quartéis lhes ensinam antigas lições / De morrer pela pátria e viver sem razão
Os soldados aprendiam lições e como se houvesse uma lavagem cerebral aceitavam cumprir as ordens do governo, mas em sua maioria muitos sabiam exatamente o que faziam e concordavam com os planos e métodos. Como diz a frase eles aceitavam morrer pelo seu país, mesmo que para isso eles fossem recriminados pela população e tivessem que viver sem anseios e sem razão, afinal de contas eles só serviam para fazer o trabalho pesado para os governantes.
Somos todos soldados, armados ou não
Na contradição de ser ou não soldados, todos eram, a diferença está nas armas e na motivação.
Os amores na mente, as flores no chão / A certeza na frente, a história na mão
A maioria, se não todas as pessoas que participavam ativamente dos manifestos eram motivados pelas perdas que sofriam, pelas mortes de amigos, parentes, conhecidos, pela dúvida do que acontecia com as pessoas que eram levadas. Alguns dos jovens quando crianças viram seus pais serem levados por policiais e nunca mais tiveram notícias, muitos viram seus amigos morrerem e o corpo simplesmente desaparecer e acabavam por não ter direito ao enterro, alguns poucos voltavam e de outros nunca mais se ouvia, eram guiados pela certeza de que poderiam mudar o mundo e pela história que cada um deles possuía.
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Grande parcela dos jovens brasileiros de hoje, desconhecem o período de 10 anos desde o golpe militar até o fim da ditadura, o desejo de mudança, a fome por liberdade e a coragem de lutar não está entre as principais prioridades do jovem do século XXI. O conformismo, a tecnologia, e várias outras novidades que surgiram após 1968, impedem que estudantes despertem em si os mesmos desejos de mudança. Muitos jovens não conseguem imaginar que existiu um tempo em que não havia internet, raves, DVD, CD, TV em cores e muito menos TV a cabo, shopping centers, big brother, MSN, orkut, entre outras coisas. Os jovens são movidos a saciar seus desejos e vontades muitas vezes supérfluas e estão mais preocupados com o próprio bem-estar, muitos desperdiçam o direito de voto, que infelizmente só foi conquistado após a ditadura, direito esse que tanto foi motivo de luta dos jovens que almeijavam garantir sua opinião e participar da história do próprio país. Insatisfação contra a corrupção, violência, injustiça, leis, governos, escolas, mas não passam de apenas reclamações. A música de Geraldo Vandré é clara, nos conscientiza e informa sobre o ano de 1968 e os demais que se seguiram de ditadura militar, nos faz repensar sobre atitudes e ideais, sobre o velho e o novo, e de como o ditado “um por todos, e todos contra um” foi tão intenso durante aqueles anos, os estudantes podem não ter derrubado a ditadura, mas foram vistos e foram parte importante e indispensável da história. É decepcionante saber de que nos tempos atuais, aceitamos o que nos é imposto, fazemos parte de uma massa que cada vez mais parece alienada e movida às tecnologias. Não conseguimos nos separar de bens materiais e tampouco lutar contra isso, nos conformamos e ficamos aprisionados. O ano de 1968 ficou apenas como exemplo de uma geração de jovens com ideais, alguns alienados sim, mas a maioria com esperança de um país melhor e capaz de lutar pela liberdade e por aquilo que lhes era imposto. Mesmo depois de 40 anos essa composição ainda pode nos expor a importância da luta pelos nossos objetivos, desejos e ideais, mas principalmente de como o conhecimento dos próprios direitos e deveres é imprescindível para que se construa uma sociedade melhor e democrática, além de ser o nosso principal dever como cidadão.
E pra você que gosta desse tipo de música e se interessa pelo assunto, preparamos uma playlist exclusiva (com esses e outros hits da ditadura):
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